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Archive for abril \15\UTC 2012

16.

                

                                   I

 Sempre a Mesma Coisa. Até Não ser.

 

 

É sempre a mesma coisa.

                Todas as noites eu sonho com o mesmo corredor à meia luz, seu papel de parede vinho, o chão de madeira escura e suas portas. Milhares de  portas. E ele parece se esticar infinitamente, como naqueles filmes de terror ou em ataques de pânico.

                No sonho, sempre me pergunto, pelo que me lembro, aonde vão dar todas aquelas portas… Se estão trancadas ou não… Se guardam coisas importantes, ou monstros, ou nada. Mas por algum motivo eu nunca tentei abri-las. Acho que é como se eu mesmo tentasse me dizer que  não deveria  ir a lugar algum, que  já estava onde deveria estar e que por mais que a curiosidade me sufocasse…estaria mais seguro não sabendo. E isso devia ser bem verdade, porque sempre, no fim, depois de andar por muito tempo, eu chegava à última porta. Ela era diferente. Todas as outras eram cinza… Essa era preta. E me lembro, vagamente, de sempre ter um número nela, mas não me recordo qual exatamente… Talvez… Seis… Dezesseis…

                Bem, não importa. De qualquer modo, ela se abria tão logo eu a tocasse e depois, nada. Exatamente, nada. Eu nunca chego a ver, realmente, o que há do outro lado. Apenas acordo com um susto e sempre logo antes de amanhecer.

                (Ele tira o maço de cigarros do bolso e, sem perguntar nada e esquecendo que não podia fumar ali, acende um. Abafando um riso nervoso, percebe pelo cigarro na mão que até então tremia e se pergunta porque. O sonho em si não era tão ruim, então porque ficara nervoso ao lembra-lo e relata-lo? Talvez fosse o que quer que estivesse do outro lado daquela maldita porta.  Não sabia se era o “não saber” ou se na verdade sabia e, o que quer que fosse, era tão horrível que preferia não se dar conta conscientemente.)

                O engraçado é que ontem tudo mudou. Quer dizer, nem tudo. O corredor era o mesmo, as portas as mesmas, as cores e eu andando. Mas todas estavam abertas, e eu podia ver cenas… Coisas acontecendo do outro lado delas .

                Não, não me lembro exatamente do que vi… Mas tinha algo de perturbador naquilo tudo. E no fim do corredor, onde antes só estaria a ultima porta preta, eu vi um homem… Uma sombra… Parada, e pude sentir que me encarava. E aí, acordei. Me sentindo mais calmo do que o normal, como se aquela presença fizesse sentido, de alguma forma.

                (Olhando suas mãos, percebe que a tremedeira passou. O cigarro, ainda quase intocado, soltava ondas de fumaça e por alguns segundos pareceu que o quarto inteiro estava embaçado.)

                Não sei o que nada disso significa. Mas uma frase, desde ontem, parece ficar cada vez mais forte na minha mente. “ Dizem que quando se dividem sonhos, divide-se também Universos”.

                (Tudo foi rápido demais. A fumaça que cobria o quarto se dispersou em um piscar de olhos, o cigarro acabou e o silêncio foi quebrado por uma voz que ele não ouvira até então. Até então, não se recordava de ouvir mais do que a si mesmo e seus pensamentos. Mas a voz vinha como um eco distante… mas dura.)

– onde… está?… CUIDADO…com…sonhos…eu…vejo…TE OBSERVANDO!… saia…AGORA!

 

(E tudo não passou de medo e escuridão.)

 

 

 

                                                                              II

Não Existem Certezas nos Sonhos, na Escuridão e nos Pensamentos.

 

                            “Nos sonhos, nunca se sabe como se chegou a determinado lugar, por mais que se imagine. Limitamo-nos a cumprir nossos objetivos, ou nos entregamos a qualquer loucura que se apresente como voar ou se deixar despencar de um penhasco.  

Na escuridão é quase o oposto; parece haver sempre um berro abafado em nossas mentes dizendo  “infernos, não importa como cheguei aqui! Como eu saio?” Mas nunca se sabe, realmente, como sair da escuridão. O pensamento não é linear. Apenas repetimos todas as opções racionais como tentar achar um interruptor que acenda uma lâmpada, ou achar uma porta que se abra pro que se espera ser uma tarde ensolarada.

E os pensamentos são como uma mistura de sonhos e escuridão. Não sabe-se a sua gênese certa, e isso nem importa. Até porque não sabemos como dar fim a eles, apenas temos a ilusão de que os calamos. E no fim, eles são tanto um “se entregar” a loucuras ou afazeres, quanto procurar soluções racionais para o que quer que seja.

Não existem certezas nos sonhos, na escuridão e nos pensamentos.”

 

Ele não sabia porque essa passagem que lera em um artigo de psicologia, de um professor qualquer, de uma faculdade pequena da sua cidade , fora a primeira coisa em que pensou quando abriu os olhos; Talvez fosse porque , observando agora o quarto onde acordara, sentisse um misto de familiaridade e estranheza. Quase como se ali fosse o seu próprio quarto, mas ele não se recordasse inteiramente disso.

 

 

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