Feeds:
Posts
Comentários

Como Deveria Ter Sido

Me lembro muito bem daquela noite,em que chovia lá fora. E confesso que não podia ver a chuva em si,mas o som que ela fazia me acalmava, embora admita que os poucos trovões que eu ouvi tivessem me dado um pavor que eu nunca havia experimentado.

Talvez tenha sido o meu choro,ou quem sabe aquilo que chamam de intuição,mas me lembro de meu pai entrando devagar em meu quarto. Pude ver a expressão séria que ele sempre carregava,mas junto à ela vinha um ar de preocupação extrema. Temi ter sido eu o motivo daquela tensão tão destoante no rosto de um homem que nunca perdia sua calma.

Ele me perguntou se eu estava bem,e quando tentei responder que “sim” meu choro não me deixou falar. Ele se sentou ao meu lado,e disse de um jeito doce: “Calma,eu estou aqui agora. Nada pode te machucar”.

Eu admirava meu pai. Ele conseguia,com algumas palavras, fazer com que a coisa mais assustadora do mundo não passasse de trivialidade. Era um homem bonito,apesar de eu não saber ao certo explicar aquela beleza. Ia além dos olhos austeros e carinhosos,além do porte forte e muito além de um sorriso acolhedor.

Ele começou,então,a me cantar uma música calma. Contava a história de um homem que fala de uma mulher de forma gentil,e tudo parecia um sonho. Eu adorava essa música,apesar de não saber se  porque  era linda de fato,ou se era o meu pai cantando que a deixava assim.

Fui me acalmando,até que os trovões lá fora não eram mais do que sussurros. Eu só ouvia a voz dele. E era tudo que bastava,ele estar ali.

Quando terminou,me olhou rindo e eu pude ver lágrimas descendo por aquele rosto tão mais experiente que o meu. Ele me disse:

“Eu não posso lhe prometer que você nunca vai chorar, sofrer,ou se confundir com esse mundo. Mas sempre que as coisas parecerem assustadoras ou impossíveis,eu estarei do seu lado. Meu amor por você jamais vai conhecer nenhum limite,nenhuma ressalva. Eu te amo.”

E de repente me bateu uma nova vontade de chorar. Eu também amava meu pai,apesar de não entender bem o que era isso.

Eu só tinha 1 ano.

As Unhas De Rúbia

Eu pensava em Rúbia,secretamente. Tão secretamente que nem mesmo este era seu verdadeiro nome,mas decidi manter o inventado para que se mantivesse em mim uma ingenuidade e uma esperança,ambas tolas…ambas apaixonadas. Tivesse,então,me recusado a assim agir,seria o mesmo que admitir uma imagem perfeitamente desenhada de uma mulher que eu só vira uma vez na vida,em uma noite sem qualquer revolução.

Mas eis a beleza da paixão,para os apaixonados: é cega,tola,maravilhosamente entorpecente e dotada de uma imprevisibilidade tamanha,que chega sem avisar em tal hora,sem qualquer brilho ou pompa. Deixa-se a pompa para a consumação,e ao desespero de amar em silêncio deixa-se a humildade e as fantasias.

Eis então que manterei meus pensamentos completos em segredos. Direi apenas que pensava em Rúbia,incessantemente,e em suas unhas. Que unhas! Tão maravilhosas eram,que me assaltavam os sonhos e sequestravam qualquer momento de paz mental. E que desculpas perfeitas,também!

Lembro-me que ,quando a vi,ela trazia as pernas cobertas,sem revelar um centímetro de pele. Em compensação,o rosto vinha despido de vergonha ou ressalva. Ela era o que era,e berrava isto a plenos pulmões ao mundo. Chega a ser engraçado,quando alguém leh faz sentir embaraço por sua própria inabilidade de ser tão livre. A liberdade só  vem para os corajosos,e os desbocados.

Resistirei à vontade de registrar nossa primeira conversa,já que as primeiras conversas são como o primeiro beijo; únicas e não dizem respeito à mais ninguém. Deixo então o que eu gostaria de ter tido,mas calei,e o que penso que ela responderia.

 

-Seus cabelos são lindos.

-Obrigada. Que estranho.

-Porque?

-É um comentário estranho,dito em uma hora sem contexto.  Quem é que elogia cabelos?

-Quem os acha bonitos,imagino. Ninguém nunca elogia o seu?

-De quando em quando,mas com contexto. Normalmente só falam que eu sou “bonita”.

-E você é.

-Uma pena que não digam dessa foma.

-Que forma?

-Assim…tão…sem maldade. Como se só constatassem um fato.

-É fato.

-Obrigada.  Você é estranho.

-De novo o estranho? Vou começar a achar que você não gostou de mim.

-Não,não. Eu gostei. É que você….bom,não falou nada até agora…com segundas intenções. Ou se falou,eu não percebi.

-Não acho que tenha falado. Pelo menos,se pareceu,não foi a intenção.

-Já disse,não pareceu.

-E isso é estranho?

-Bastante.

-É,eu sou estranho.

-Mas me achou bonita.

-Linda.

-Linda? Assim,sem mais nada?

-O que mais você quer? Uma declaração?

-Você faria?

-Já fiz,na minha cabeça.

-E porque não diz?

-Não tem contexto.

-Você é mesmo estranho.

-Você também.